sexta-feira, 14 de maio de 2010

Porque lamarckista? Parte 1: Linnaeus e o fixismo


Vocês devem estar se perguntando porque esse cara chega, cria um blog pra falar um bando de coisas doidas de biologia, diz que é lamarckista e nem explica porque. Então resolvi escrever uma série de textos sobre a história do pensamento evolutivo pra tentar chegar ao porque da idéia de que o Lamarck estava errado e se contrapunha a teoria de Darwin, interpretações erradas ao meu ver. Nesse primeiro vou tentar descrever como era a situação antes do Lamarck publicar o “Philosophie zoologique” em 1809.

Eu não sei quanto a vocês, mas eu sempre achei que antes da idéia de evolução a tradição bíblica havia induzido ao pensamento de que as espécies foram todas criadas de uma vez só e que eram entidades fixas (não mudam). Pois é, mas acontece que até o século 18 os conceitos de geração espontânea e transmutação eram incrivelmente bem aceitos. Nos séculos 16 e 17 era comum encontrar relatos como os que diziam que a girafa era o produto do cruzamento de camelos e leopardos. Santo Agostinho assumia que as espécies não deveriam ter sido criadas durante os seis dias do "Gênese". Durante este período somente um potencial se formaria e as formas apareceriam muito depois. Autoridades do clero, como Albert the Great, acreditavam que deus havia conferido poderes aos elementos, como a terra e as águas. Estes teriam então gerado as diversas formas de vida em tempos diferentes. E essas formas eram capazes de reproduzir-se. Santo Tomás de Aquino admitiu que “...novas espécies de animais são produzidas por putrefação, pela força que as estrelas e os elementos receberam no início. Novamente, animais de novos tipos aparecem ocasionalmente da conexão de indivíduos pertencentes a diferentes espécies...”

Então pensem bem, imagina desenvolver uma teoria evolutiva no meio dessa bagunça onde as espécies se transformavam em outras, cruzavam entre si formando híbridos e eram geradas de matéria inanimada. Impossível. Então a descoberta do fixismo das espécies no meio do século 18 representou uma novidade. Só depois que este conceito foi aceito pelos naturalistas este também foi incorporado como uma interpretação literária da bíblia pelo clero.

Dentre as observações de transmutações estavam as que plantas quando mudadas de ambiente se transformavam em plantas completamente diferentes morfologicamente. Este fenômeno acontece mesmo. Existem diversas espécies de Mata Atlântica, por exemplo, que conseguem se estabelecer em restinga ou mangue. Mas para isso passam por diversas modificações morfológicas. O que o Linnaeus e outros fizeram no século 18 foi realizar transplante e re-transplante de plantas entre ambientes para mostrar que estas não estavam se tornando outras espécies. Então, o fixismo era não só uma novidade como também um progresso cientifico!

O Linnaeus também foi importante por ter gerado o primeiro sistema de classificação dos seres vivos, o sistema binomial. Inclusive o nome de nossa espécie, Homo sapiens, foi por ele dado. Este sistema já utilizava a classificação de grupos maiores e menores, reino, classe, ordem gênero e espécie. Houveram outros sistemas antes mas o interessante do Sistema Natural, como o Linnaeus o batizou, foi ser o primeiro não antropocêntrico. Assim, nós fomos classificados neste sistema assim como qualquer outra espécie. A classificação que utilizamos hoje é fruto de releituras do Sistema Natural do Linnaeus.

O próprio Linnaeus assumia que os critérios para classificação que ele usava eram artificiais, não refletiam uma relação real entre os organismos. O Linnaeus era criacionista, acreditava no design inteligente das espécies por um deus. Quem sacou a relação genealógica entre os organismos foi o Lamarck. Aqui está, então, a primeira razão porque todos nós somos lamarckistas. No próximo texto eu vou me deter mais ao que o Lamarck disse.

Fontes:
Amundson R (2005) The changing role of the embryo in the evolutionary thought. Cambridge University Press.

Gould S.J.(1995) Dinossauro no Palheiro. Companhia das Letras.
Em especial o capitulo “Linnaeus e o avô de Darwin”

Zirkle C. (1959) Species before Darwin. Prooced. Am. Philos. Soc. 103:636-644.

3 comentários:

Pedro disse...

Opa, dá-lhe Lamarck!

Já leu o livro "developmental plasticity and evolution", da West-Eberhard?

Eduardo Bouth Sequerra disse...

Esse ta na lista. Eu sei mais ou menos o que ela diz pelas discussoes da literatura mas certamente quero ler. Tao pipocando um bando de publicacoes sobre o assunto. Valeu pela dica e por acompanhar o blog!

Karine Narahara disse...

Parabéns pelo blog Dudu! A regulação eigenética estabelece um incrível campo de diálogo entre biologia e antropologia, como já sinalizou o (bio)antropólogo Gregory Bateson (filho do Willian Bateson). Curiosa para ler os próximos textos sobre o histórica da teoria lamarckista. Beijos!