quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Comer pra quê?


Bom, então vou começar com a incrível história dos caramujos que resolveram parar de comer. Existe um caramujo lá na Flórida (aliás não um só mas um gênero inteiro) que se alimenta de algas. Só que não contentes com comer as algas esses bichos pegam os cloroplastos que estão dentro das células das algas, colocam pra dentro de suas próprias células e começam a fazer fotossíntese! E algumas espécies ficam meses sem comer só vivendo de fotossíntese.

Pra continuar deixa eu falar um pouquinho da evolução dos cloroplastos. Hoje em dia é bem aceito que os eucariotos, organismos que possuem núcleo, apareceram com o início de uma relação onde uma célula passou a viver dentro da outra. Assim, acredita-se que as mitocôndrias e os cloroplastos foram um dia microorganismos que entraram dentro de outra célula e passaram a viver no seu interior. Esses microorganismos reproduziam e foram passados daí em diante para as próximas gerações da célula hospedeira. Uma das consequências desta história é que as mitocôndrias e os cloroplastos tem o seu prórpio DNA. Só que durante a história desta relação partes dos DNAs do cloroplasto e do núcleo foram trocados entre si. Assim, os genes necessários para fazer as enzimas da fotossíntese, que originalmente estavam no cloroplasto, em boa parte se mudaram para o núcleo. Essa transferência firmou de vez o contrato que um não poderia mais viver sem o outro.

Mas e o caso do caramujo? O cloroplasto está pulando o muro e fazendo fotossíntese em outra vizinhança. As proteínas tem uma vida no nosso organismo. Então,os genes estão continuamente sendo lidos para fazer mais dessas proteínas. A duração de cada proteína varia mas definitivamente meses de vida sem nenhuma reposiçao é demais. Então como o caramujo faz pra fazer fotossíntese sem os genes do núcleo das células de alga? Existem duas opções a esta altura. Ou o caramujo tem uma fórmula mágica para aumentar a duração das proteínas ou ele roubou não só os cloroplastos mas também os genes de fotossíntese que estavam no núcleo.

E foi isso mesmo que aconteceu. Apesar de nascer sem cloroplasto e ainda depender de comer a alga para começar a fazer fotossíntese, E chlorotica tem genes de fotossíntese que ele herda de seus pais.


Para os entendidos:

Rumpho e colaboradores (2000). Solar-powered sea slugs. Mollusc/algal chloroplast symbiosis. Plant Physiol. 123:29-38



Rumpho e colaboradores (2008). Horizontal gene transfer of the algal nuclear gene psbO to the photosynthetic sea slug Elysia chlorotica. PNAS 105:17867-17871.

5 comentários:

brunoparedes disse...

Muito bacana! Não fosse esse seu post, eu jamais iria imagina que isso seria possível! Já viajei várias vezes nessas paradas de eucariotos se aproveitando da clorofila. Se um caramujo pode, pq humanos não poderiam?

Anônimo disse...

Quem dera eu pudesse viver de fotossíntese. Sei, sei, comer é gostoso... Mas a cervejinha eu não desperdiçaria. :)
Maneiro o blog! Siga forte!

D. disse...

Muito bom começo, Dudu! Adorei! Interessantíssimo! Como o Nobru, vivo viajando nessa história de fotossíntese por animais. Inclusive, é uma piada que faço recorrentemente. Valeu!

Joao disse...

Acho que o nome do caramujo ta errado, acho que deve seu a E. rotica. Parece uma vulva flutando

zouropas disse...

Poxa, cuidado pra isso não cair nos ouvidos das anoréxicas...